
Enquanto à minha frente a figurinha gesticulava, falava, falava, falava sem parar com um voz estridente daquelas que irritam os mortos, sobre os filhos, espeerrrtíssimos, sobre o carro topo de gama, sobre as férias, sobre como era especial magnética melhor.
Grande castigo para um fim de tarde de um dia difícil, eu só queria beber um café, por isso parei na pastelaria onde fui mortalmente tomada de assalto pela rainha das colas
Passados longos e torturantes minutos lá entrei naquela derradeira fase do aborrecimento, já superada a crescente vontade de a mandar calar e em que Graças aos Céus deixamos de ouvir.
Olho em frente, sorrindo sempre um sorriso daqueles postiços e já só vejo a fila de dentes arreganhados em sorriso que teima em não se desfazer e os braços que gesticulam, gesticulam sem parar.
Já não ouço a voz, estridente, irritante, consigo desligar o meu botão interior, silêncio absoluto, maravilha, só o bater do meu coração e o ritmo, agora mais calmo da minha própria respiração, acalmo-me.
De repente, oiço a minha voz, a que não domino, a interior gritar:
- Manda-me essa fulana à merda, que falta de paciência, espera, será que é à merda ou para a merda?
