
Mal desponta o mês de Maio, começam a organizar-se em bandos, depois de meses de preparação no ginásio para a derradeira hipocrisia, a cereja no topo do bolo.
Falo dos "peregrinos", pois é, tal como os chapéus, peregrinos também há muitos...
Estes "peregrinos" são os tais que levam 365 dias por ano uma vidinha de vaidade, maldade, falsidade, cobiça, mentira, traição. Que exibem a Fé, como mais uma etiqueta a juntar a todas as outras que ostentam da cabeça aos pés, em casa, no trabalho, na rua.
Estes "peregrinos" são os tais que vivem no hemisfério oposto ao das boas almas, independentemente da religião que professem, incapazes de estender a mão a quem precisa, incapazes de um gesto altruísta, a menos que tenham oportunidade de praticar a tal caridade de pendurar à janela, aquela que todos podem ver e se alguém houver que ande distraído, lá estão eles para chamarem à atenção, divulgando aos quatro ventos o gestozinho praticado.
Estes "peregrinos" são os tais ignóbeis que pensam que mergulhar na piscina da Fé e dar duas braçadas para cada lado, lhes lava a pestilência do corpo e da alma que os cobre o resto do ano apenas tentada colmatar aqui e ali pelos salpicos da pia de água-benta, onde chapinham pontualmente todos os Domingos, para inglês ver.
Quanto aos outros, desejo-vos sempre boa viagem que tragam serenos os corações de regresso a casa e que alcancem a Graça de que tanto precisam.
Se concordo ou não com os sacrifícios feitos em nome da Fé, se concordo com esta quase chantagem com o Divino, não interessa. Cada um vive a Fé à sua maneira, não se pode é ser hipócrita e usá-la como detergente imbatível na lavagem das almas que pela forma como vivem as suas vidas deveriam ser para sempre condenadas à escuridão.
A Fé, o viver de forma cristã, ou de acordo com qualquer outra forma de religião, é bem mais difícil do que se julga, não é uma actividade recreativa nem hobby de fim-de-semana, tentar viver dentro da Fé, pelo menos da forma como a acredito é tarefa árdua e na maioria das vezes não cumprida, mas pelo menos acredito que ainda haja quem tente.
Eu tento, na maioria das vezes sem sucesso, mas tento. Tento ser melhor pessoa, evoluir como ser humano, ajudar quem precisa, estar atenta a mim mesma, ser justa, não me deixar levar pelo lado mais fácil da vida. Eu disse que tento, não que consigo porque se assim fosse esta tremenda falsidade não me atingia assim tanto não era? Será, mas de momento é o que o meu mau feitio permite.



