segunda-feira, 17 de novembro de 2008

A "FENDA"




Quando me voltei dei de caras com ele. O mesmo sorriso rasgado os olhos que falam e as covinhas de cada lado da boca. Não vi a barba da véspera pespontada de branco, nem os cabelos grisalhos, vi o Jorge, que a vida, as escolhas ditaram que se afastasse de mim, dos amigos de quem ele era, afinal.


- Estás sózinha?


- Estou.


- Tens tempo?


- Todo o dia.


- Vamos pescar?


- Vamos.


- Imagina tu que o Batalha me deixou pendurado, logo hoje a última pescaria antes de recolher o barco à doca seca. Longe estava de ter companhia melhorada.

Rio alto, sabendo de antemão o quanto o pobre Batalha irá ser atormentado nos dias seguintes por conta deste deslize.

Chegados ao barco, repetimos os gestos de sempre, recebo da mão dele a chave como sempre fizemos, ligo o motor, para que aqueça enquanto ele liberta o barco de amarrações. Lentamente, saio do porto rumo ao nosso local de sempre enquanto ele vai montando carretos e preparando iscos.

O dia está agradável, quase quente o sol baixo cega-nos e tolda-nos ligeiramente os sentidos, confundindo-os enquanto os lança numa profusão de ouro azul e prata.

Cabisbaixo, tenta encetar a conversa sobre os motivos que o levaram a afastar-se dos amigos em geral de mim em particualr. De dedo em riste, imponho silêncio, não importa, não interessa o ontem só o hoje e o amanhã. Todos nós sabemos, porquê e não queremos saber mais, apenas o queremos de volta.

Os salpicos de água já fria, adivinhando inverno molham-me a cara, o cabelo, não preciso de muito mais para me sentir feliz. Hoje, quando acrodei e decidi rumar a oeste sabia, não perguntem como, simplesmente sabia que o dia estava destinado a ser feliz.

Lançamos âncora e enquanto ele pesca e eu emaranho fios e tranco carretos, falamos das coisas de sempre, a família, os amigos, o trabalho a crise, coisas de hoje, como se ontem não tivesse nunca existido, como se a fenda nunca tivesse sido aberta.

A noite precoce começa a fazer-se presente e rumamos ao porto. Tralha arrumada, o petisco do costume, no sítio do costume nos dias de pescaria .


- Então, e para a semana, vêem - pergunta ele.


- Talvez respondo eu, enquanto me despeço.


- Se vierem liga-me.


Chego a casa já noite fechada, entro e digo, feliz ao abraço que me espera:


- Estive com o Jorge, saímos de barco, fomos à pesca.


Sorri bem disposto, feliz, sabe bem o quanto fechar esta fenda era importante para mim.


Foi fácil, nas grandes amizades como no amor o importante é não fechar as fendas de modo abrupto, em conflito, é preciso saber esperar dar espaço, compreender e deixar uma estrada limpa de obstáculos para que o caminho de regresso possa ser feito, com calma, sem danos colaterais, mesmo que para isso sejam precisos 23 anos.


14 comentários:

Mr X disse...

É bem verdade, sim senhora.

Thunderlady disse...

23 anos... Ainda tenho muito que esperar pelo fecho de algumas fendas, então.

E ficou mesmo fechada? Bem fechada?
:))

Bjss

najla disse...

Costuma-se dizer, "quem espera sempre alcança" e o "tempo tudo cura"...e por vezes é bem verdade, não é?

M disse...

Uma verdadeira amizade nunca acaba, por mais anos que passem...

Gi disse...

Amizade, amizade, amizade com fendas, se por acaso se voltam a encontrar, o tempo encarregou-se de as fechar;
O pior é quando um dos interlocutores desaparece antes desse encontro ...

pensamentosametro disse...

Amigos,

A fenda em questão foi provocada por uma terceira pessoa. Culpa dele que não soube separar as coisas? Talvez. Não julgo nem guardo qualquer tipo de mágoa, levou 23 anos a perceber o que tinha que ser entendido. Hoje recupera os amigos que quiseram esperar.:)))

Bjos


Tita

Ana Oliveira disse...

Tita

Que bom que tenha sido assim...e obrigada por dividir connosco...nunca é demais contar estas coisas que são mais que frases feitas, porque são feitas da realidade.

Beijos

Ana

Anónimo disse...

Bolas... Emocionei-me...

Tenho assim uma fenda já fechada e bem recentemente.

E outras por fechar. Vamos ver.

Beijo enorme, minha linda.

ovo*

Fatima disse...

Fantástico Tita.

Paulo Vinhal disse...

Olá Red

Uma amiga nortenha, a Joana Quelhas, tem um blog onde expõe alguma da arte que pratica. Dá para veres e divulgar?

Bjs

Paulo Vinhal disse...

Aí vai

http://postigodacor.blogspot.com/

SONHADOR disse...

Mais vale tarde, do que nunca.
23 anos é muito tempo...

Beijos.

fj disse...

todos nós por aqui e por ali temos fendas abertas!
beijo meu.

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Foi na blogosfera que redescobri uma amiga de há 30 anos,companheira diária de encontros, lutas, desncontros, amores e desamores, que a minha vida de andarilho perdera em percursos variados. Sei, por isso, como são bons esses reencontros. Permita-me que partilhe um pouco da sua felicidade.