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segunda-feira, 20 de julho de 2009

PALAVRAS DE SEDA


Fim de tarde, cerca das 20 horas, estou tão cansada que quase me arrasto do escritório até ao carro, pelo caminho penso em telefonar a uma amiga, para tomar um café, descomprimir um pouco, à A., não, que tem o neto em casa, à I. não que é hora de jantar e tem a família à espera. Esqueço-me com frequência que as pessoas, ao contrário de mim, na sua maioria têm horários e vidas normais...

Rumo a casa antecipando o prazer de um mergulho antes de jantar, hoje só porque mais ou menos todas as Quartas-feiras o A. janta com dois amigos, mas a casa vazia vai fazer-me bem, penso.

Ao aproximar-me do portão das traseira reparo no carro e na silhueta que nele se apoia, ambos familiares - o Jorge.

Boa tarde Doutora, trago aqui convite expresso de uma D. Antonieta para uma sopa de peixe e umas enguias fritas com arroz de rifas, regados pelo melhor vinho de Valada.

Há quanto tempo, abraço-o, sinto-o nervoso, faço-o entrar que se sirva de algo enquanto mudo de roupa, desço a correr já acompanhada do Bix que lhe pressentiu a presença e vem também matar saudades.

Embarcamos todos no Cherokee, não vale sequer a pena insistir, jamais permitiria que regressasse só na noite da estrada de campo.

Conduz calado, a pele pontilhada pelo bronzeado adquirido no campo, na faina dos toiros e dos cavalos. Respeito o silêncio dele, sei que a coisa é grave, a nossa amizade velha de tanto tempo devíamos ter uns 10 anos cada quando nos começámos a chamar amigos, assim me ensina, me refreia a língua, me obriga a esperar pelo momento certo.

É assim o Jorge, é assim a nossa amizade de tantos anos, mais de quarenta, sem pedidos de justificação, sem obrigações, sem exigências.

Filho do maioral das vacas de uma casa agrícola da região, que desde sempre frequentei, cedo travámos conhecimento, creio que o que cavalgámos pelos campos de Valada juntos daria para cobrir meio mundo e percorrer a muralha da China. Por opção ficou ligado ao campo, aos toiros, aos cavalos, à dureza da vida agrícola, por amor, a uma mulher que nunca se habituou a essa vida e nunca o amou nem entendeu como merecia.

Uns 10 minutos de estrada põem-nos na quinta, entramos pelo portão lateral e cruzamo-nos logo com o pai dele que me pergunta com um meio sorriso de quem sabe que não - Então menina, vem jantar à casa grande? - Não senhor Mendes, fui convidada para um manjar dos deuses não muito longe daqui - respondo devolvendo o sorriso cúmplice.
À nossa frente desenrola-e o casario dos trabalhadores da quinta, aqui ainda se faz à moda antiga os trabalhadores permanentes têm morada na propriedade, uma fila de casinhas baixas pintadas de fresco branco e uma barra azul anil que lhes remata a base dos muros, envolve as portas e trepa pelas janelas. No fim da fila destaca-se uma por ser maior que as outras e ostentar um pequeno alpendre, é para aí que vamos.

Passada a porta já dois braços me envolvem com força, nos olhos bailam-lhe duas lágrimas que me fazem sentir culpada pela ausência.

Ai a minha menina, diz e a vibração de uma amor genuíno de uma amizade verdadeira sinto-a no peito como um agasalho acabado de vestir em dia frio.

Jantamos no alpendre das traseiras a divinal sopa de peixe, as enguias acabadas de fritar com arroz de tomate da horta e alface daquela que e defaz na boca, bebemos vinho branco com 7up, sacrilégio, grita o Sr, Mendes, mas eu sei porquê.

Terminado o jantar, aparece a D. Antonieta com uma melancia enorme, daquelas pretas, da minha perdição, criadas nas terras de aluvião da beira-tejo. Sei que a escolha foi cuidada e motivo de grande mimo.

Terminada a melancia o casal sai com aquela calma e graciosidade que sempre lhes conheci, durante todo o jantar nem rasto, nem palavra sobre a Maria Elvira, estava percebida a razão da tristeza do meu amigo.

A noite tinha acabo de cair sobre o rio e como em pequenos sentámos-nos no banco debaixo do salgueiro grande, enorme qual gigantesca gruta, os pés quase tocando a água e então a silhueta alta e firme de um homem forte de um metro e noventa cai e descompõe-se, desfaz-se em lágrimas.

Ela foi-se embora Luísa, a Maria Elvira deixou-me de vez. Falámos durante horas, do que une e separa as pessoas, falámos de nós, do destino, de escolhas. Rimos e chorámos no ombro um do outro, sem sobressaltos, serenamente e apesar do tema ser triste embora não inesperado voltei para casa, estranhamente apaziguada por esta conversa feita, de palavras de seda.

terça-feira, 21 de abril de 2009

MAIS UMA VIAGEM MAIS UMA CORRIDA


As palavras ressoam até hoje na minha cabeça.

Eram gritadas pelo Sr. Belmiro, dono do carrossel que costumava estacionar para o Verão lá para baixo ao sul perto da lota, na Nazaré.

Curiosa que fui, que sou, a diferente forma de vida atraiu-me sempre. Fui-me chegando, insinuando fazendo presente até conseguir levantar um pouco o manto prateado de mistérios que envolviam, leões, girafas, zebras, cavalinhos de pau eternamente sorridentes.

Por detrás do pano viviam os segredos do carrossel e as histórias magnificas do Sr. Belmiro.

Por isso quando diante de mim se configura mais um dia difícil, busco-lhe sempre o pregão, cerro os punhos e repito de mim para mim, a frase mágica que assinalava o princípio do sonho.

"Mais uma viagem, mais uma corrida..."

domingo, 11 de janeiro de 2009

ATÉ Á VISTA PORQUE NUNCA DIGO ADEUS A QUEM AMO




Conheci a A.C. há alguns anos, alguns é como quem diz uns 18.

Conhecia-a por via profissional e foi daquelas pessoas de quem gostei logo. Cara lavada, sorriso aberto, prática e incisiva, outros, muitos, pontos de convergência viriam a revelar-se mais adiante.

Quase de imediato esta simpatia profissional passou para a esfera das amizades pessoais, o que no meu caso muito raramente acontece.

Casada com um encantador arquitecto paisagista , visionário e cheio de sonhos, teimoso q.b. para fazer de uma das maiores praias da nossa costa oeste e das que me são mais gratas ao coração, o esplendor que hoje é.

Nascida em Angola, filha de um casal de professores de Lisboa, apaixonados por África, foi obrigada a deixar Luanda no princípio da adolescência.

Sempre manifestou alto e bom som a sua imensa saudade de África, nunca em tom de lamento, sempre com um obstinado, um dia voltarei.

Ontem, recebo um telefonema da A.C. que nos convida para um almoço junto ao mar, nada de anormal, uma vez que isso acontece com frequência, no entanto senti um aperto no peito, um misto de alegria e tristeza, eu tenho destas coisas a que chamam pressentimentos, intuição o que quiserem.

Chegámos cedo como pedido, para que pudéssemos aproveitar o magnífico sol de inverno. Aos poucos foram chegando várias caras conhecidas até estar completa a roda de amigos da A.C. e do F.

Vai voltar a Angola, ainda esta semana, é viagem há muito preparada, tudo está pronto, decidido, organizado.

Nada me dá mais prazer do que ver alguém, com os pés bem firmes na terra que perseguiu sempre um sonho ser recompensada e conseguir realizá-lo. Não há maior prova de amor do que do F., nascido e criado em Lisboa, depois da mudança para o Oeste, vai dar um passo de gigante até África, mudar completamente a sua vida apenas por amor.

Partem com dois filhos adolescentes 2 cães e todos os pertences, na mala um projecto lindo que já navega e no coração, um mar de sonhos.

Reuniram hoje num almoço frente ao mar todos os vossos amigos dos quais me honra muito, muito, fazer parte, num almoço de gente feliz embora com algumas lágrimas.

Desejo-vos o melhor que sejam felizes, que vejam recompensados todos os vossos esforços e a vossa coragem.

Admiro profundamente estas pessoas que por várias razões foram forçados a deixar algum lugar ou alguém que amavam e que ao longo da vida lutam, sem mágoas e sem dramatismo, corajosamente, para aí regressarem.

Feito o convite para uma visita de imediato aceite, em breve estaremos de novo juntos a repetir este almoço junto ao mar, mas do lado de lá, em Luanda.

Até breve meus queridos.

Sucesso, todo o sucesso do mundo.

Coragem, sorte, saúde, sorte, amor e muita, muita alegria.