terça-feira, 2 de junho de 2009

TODOS OS DIAS SÃO DIA DA CRIANÇA


Dia da criança, semana da criança, a pergunta que me coloco é se ainda há crianças, claro que há crias do homem, adultos em embrião, em evolução, mas aquilo que me pergunto é se há crianças como antigamente se as nossas crianças de hoje vivem a sua infância plenamente.

As ruas vazias de gritos ao cair da tarde, despojadas de bicicletas, jogos de bola e do elástico dizem-me que não.

As crianças agora brincam de outra forma dirão vocês, as crianças agora, na sua maioria, não brincam digo eu, matam o tempo que lhes sobra das vidas excessivamente cheias de ATL'S, actividades extra curriculares perfeitamente dispensáveis que apenas servem para lhes ocupar as horas que não sobram aos pais e aos avós, uns porque não podem, outros porque não querem.

Deixámos que a vida, a competitividade no trabalho, a vontade de ter toda a espécie de bens materiais se sobrepusessem ao superior interessa de ver crescer uma criança, de lhe dar a hipótese de se exprimir totalmente para além dos jogos de computador, das consolas, dos dvd´s , brincadeiras solitárias até para quem tem irmãos, falo do que retiro da observação da vida de algumas crianças que conheço, felizmente nem todas estão votadas as este destino, umas poucas têm ainda o privilégio de brincar livremente, na rua sem a supervisão de uma educadora ou vigilante o que acho fundamental, imprescindível até a um saudável desenvolvimento, porque brincar imita a vida, prepara-nos para o futuro dos relacionamentos.

Eu falo e sei do que falo, logo eu que não fui a mais presente das mães, assumidamente carreirista, faço mea culpa, contudo sei que tive sempre substituta à altura, sei que os meus filhos ainda brincaram nas ruas do bairro onde fizeram amizades que se provaram eternamente saudáveis, onde travaram as primeiras lutas da vida social, onde aprenderam a ganhar, a perder, a escolher a estabelecer relações, é sobretudo na necessidade de se desenvolver de se afirmar como fazendo parte da tribo que é a sociedade que penso que o relacionamento das crianças na ruas do seu bairro, o que estas brincadeiras lhe trarão no futuro em termos de riqueza como ser humano jamais poderá ser adquirido em nenhum ATL ou depósito onde hoje somos obrigados a deixar as nossas crianças. Talvez a geração a que pertencem os meus filhos e muitos dos que aqui passam tenha sido a última a poder gozar este bem supremo.

Tenho saudades das correrias dos gritos, do ruído dos skates nas rampas do quintal de trás e de os ver suados, os olhos em brasa de quem vive, morde a vida na sua plenitude e atacarem os grandes copos de leite espumoso e as fatias de pão de centeio que enchiam até transbordarem de doce ou qualquer outra coisa do seu desejo nesse dia enquanto, ontem como hoje, mesa cheia de muitas caras que faziam deles esta nossa casa, casa de todos afinal, e contavam quase sempre ao mesmo tempo as aventuras do dia, os resultados das disputas, dos jogos acabados de largar lá em baixo, no quintal, o dia na escola, as novidades,as alegrias e as tristezas. Sempre fiz um esforço para estar em casa o mais possível a esta hora para mim sagrada. Quantas vezes fazia este intervalo e voltava ao escritório, hora preciosa, ponto alto do dia, apenas porque assim a tornámos,especial.

Curiosamente olho em volta do grupo de amigos dos meus filhos e aquelas carinhas de miúdo pequeno são as mesmas, ora barbadas que se sentam à sua volta nas patuscadas da adega, as amiguinhas cresceram e continuam a ser hoje as irmãs que não tiveram, trazem com elas para a roda de amigos os maridos e os filhos, será que se os laços de infância seriam os mesmos, fortes quase que me atreveria a dizer inquebráveis se tivessem vivido o mundo das crianças de hoje? Duvido.

Eu sei que a vida, a insegurança das ruas, o trânsito, a necessidade crescente de ganhar mais dinheiro não permite muita coisa, não nos permite viver como sabemos e gostaríamos, mas podemos tentar penso eu , recuperar um bocadinho da alegria de ser criança que foi ficando lá para trás e que hoje apenas pequenos grupos de afortunados conseguem ainda usufruir.

14 comentários:

SONHADOR disse...

mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.
é preciso lembrar que a infância de hoje é completamente diferente daquela que vivemos.

beijos.

Mozka Tché Tché disse...

Ora que belo texto, realista e muito bem escrito. Eu tive a sorte de viver essa infância e ainda conto com amigos "do prédio" e dos outros. Tive os meus inimigos e as minhas lutas que se travavam na rua com todos a circundarem. Quando um perdia era ajudado pelo vencedor a levantar-se desse chão humilhante. Mas tudo era depressa esquecido e hoje tenho até um grande amigo cuja relação começou à estalada.
Ultimamente tenho tido uma experiência que nunca tinha vivido, o de estar junto a malta nova. É uma desilusão esta geração, ainda por cima com posses para poder ser a melhor de todas. Não há interesses a não ser a trashtv. Não há cultura, mesmo andando nos mais reputados estabelecimentos privados. Não há alegria, mas sim a paranóia de não ter o corpo perfeito... aos 13.
É assustador.

Thunderlady disse...

Este teu texto é o que penso (tirando a parte dos teus filhos, ahahahah) quando estou com os meus sobrinhos.
Não sabem reagir a nada.

Resumidamente: acho que os pais de hoje (que são a minha geração mais coisa menos coisa) não vêm pessoas nos filhos, mas mais um complemento tipo electrodoméstico que programam para serem o que eles querem e ficam abismados quando desocbrem que a criança afinal é uma pessoa (uau!!). O problema é que quando reparam nisso já não sabem lidar ocm essa pessoa.

Os pais de hoje não sabem orientar, são também eles autómatos.

Bahhh


Bjs

Do Mel ao Fel disse...

Lindo texto, muito suadoso e cheio de sentimento.

Mas penso que hoje também há coisas boas e, apesar de ser diferente do antigamente, as crianças ainda representam a alegria da vida. À sua maneira, ainda encontram a felicidade nesses ATLs e Actividades Extra-curriculares e os pais vão encontrando aí também o que acreditam ser os seus melhores substitutos.

Ovinho Estrela(do) disse...

Tita!

Eu sou ainda, por pouco... Da geração dos elásticos na rua e das escondidinhas no quintal e da macaca e tudo e tudo e tudo!

Hoje é, efectivamente, como tu tão bem descreves... Resta-nos a nós, mães, pais, educadores lutar e zelar para que o ATL, os prolongamentos dos colégios onde trabalhamos e afins sejam o mais humanizados possível... com baloiços, com macacas desenhadas no chão e jogos do galo na parede!

Que esta geração pequena da playstation e da nintendo se deixe invadir pelo louco correr, transpitar até às orelhas, rir, saltar e cair e fazer dói-dói no chão!!

Beijos mil!!

(Contagem descrescente!! Muito decrescenteeeeeeeee!!)

Hugs&kisses, my dear! :)

*

Pepper disse...

Lembrei-me um pouco da minha infância.
Quando o meu pai morreu,a minha mãe foi trabalhar para nos poder dar o essencial.
Ela nunca esteve muito presente na minha vida...

Ovinho Estrela(do) disse...

1

Ovinho Estrela(do) disse...

2

Ovinho Estrela(do) disse...

3

Ovinho Estrela(do) disse...

TRÊS!!

:))))))))))))))))))))))))))))))))

(suspiro!!)

Me Hate disse...

Tive uma infância porreira, passada entre a cidade (ainda sou do tempo em que brincava na estrada da minha rua e tinhamos em plena cidade as chaves de casa uns dos outros)... e no campo, na terreola dos meus avós e na do meu pai e aí desde fazermos as coisas mais tolas do género: mergulhar em poços a passearmos pelos pomares e cerejeiras para as irmos comendo, fiz de tudo um pouco...

Tive uma infância feliz. Uma adolescência de lutas estudantis e um começo de idade adulta com controversia mas, julgo que os melhores dias ainda estão ali, ao cruzar da esquina!

najla disse...

É por isso, querida Tita, que eu adoro onde vivo! Todos os dias, na minha rua, juntam-se crianças de todas as idades. As mais pequenas com os pais, os maiorzinhos já vão manifestando a sua (pseudo)dependencia. E os gritos, os risos ainda se ouvem na minha rua! Ainda não se perdeu por estas bandas....

bjos

Ana Oliveira disse...

Tita

Eram, para nos os bons velhos tempos...mas os tempos mudaram, as familias mudaram e mesmo nesta mudanca tanta coisa boa se mantem.
Tantos jovens de hoje teem o sentido de familia, sao responsaveis, preocupados com o presente e com o futuro, a par de uma mente mais eficiente que a nossa na mesma idade, mais libertos de preconceitos...
Isto sou eu a achar...

Beijos

Ana

fj disse...

paasei a fugir...ainda mais que Tu!!

deixo um beijinho e o desejo de um bom fim de semana!!!

E com a nossa cidade em Festa...espero que venhas até cá!

Encontramo-nos aqui ou ...quem sabe, noutro sitio qq!
:))
beijinhossss